Seis anos e meio atrás comecei meu primeiro blog. Um dos primeiros posts serviria de inspiração para o businrio. Foi sobre algo que presenciei numa viagem de ônibus. Abaixo transcrevo aquele post com a explicação da minha teoria fundamental sobre a relação entre o que acontece no ônibus coletivo e o que se passa na sociedade em geral. Para situar o leitor, explico que naquela época estavam começando a usar as portas dianteiras dos ônibus para entrada e não mais as traseiras. Boa leitura!
O povo é escroto
É andando de ônibus que a gente percebe como o povo é escroto. Hoje eu vim para o jornal num daqueles ônibus ao contrário: os passageiros entram pela frente e saem por trás. (Para quem não conhece, é mais uma forma indecente de as empresas de ônibus aumentarem seus lucros. Idosos, estudantes e deficientes são obrigados a entrar pela frente e viajar num espaço entre a porta e a roleta. Quando esse espaço está cheio, eles têm de passar a roleta e pagar passagem. Dessa forma, a empresa garante que um número limitado de pessoas viajará de graça).
Enfim, as pessoas ainda não se acostumaram com os ônibus-caranguejo e então se dirigem à porta de trás. Hoje, uma mulher chegou a entrar por trás, mas só aí percebeu que estava na porta errada. Ela pediu ao motorista que a esperasse chegar à porta dianteira antes de dar a partida e desceu do ônibus.
É lógico que o ônibus arrancou e a deixou com cara de idiota no ponto. Foi aí que a reação dos outros passageiros me surpreendeu. Ao invés de se solidarizar com a mulher, o povo começou a rir. Minhas suspeitas foram confirmadas: o povo é escroto.
Hoje a saída do ônibus é por trás, mas nem sempre foi assim; lembra?Eu vinha desenvol- vendo essa teoria desde que assisti ao filme Cronicamente inviável, de Sergio Bianchi. No filme, um ônibus fecha o carro de uma madame no trânsito. Ela corre atrás do ônibus e lhe dá uma fechada, obrigando-o a parar. Em seguida, começa a esculachar o motorista, dizendo que ele é um pé-rapado, um merda, por isso não passa de um motorista de ônibus. Enfim, todas as coisas que a gente pensa em dizer quando leva uma fechada de um ônibus. Ao fim do chilique, o povo que está no interior do coletivo começa a bater palmas para a mulher.
Ora, esse diretor mostrou que conhece muito pouco da alma do povo que anda de ônibus. O povo fica sempre do lado do motorista. Quando você está no ponto e o ônibus passa direto, o motorista é um filho da puta. Mas quando você está dentro do ônibus, tudo o que o motorista faz é ótimo, desde que você chegue mais cedo ao seu destino. Já dizia o ditado: pimenta nos olhos dos outros é refresco.
Quer um exemplo? Uma vez uma amiga viu o ladrão metendo a mão na bolsa dela dentro do ônibus e lhe roubando o celular. Ela pediu para que o motorista parasse e gritou que havia sido roubada. O que o povo fez? Disse que ela era louca, gritou: "Vambora, piloto. Deixa essa maluca aí gritando!". Pobre povo brasileiro...
Até agora eu ouço o riso do povo escarnecendo da mulher ignorante que não sabia ler "entrada pela dianteira". Ainda me lembro da sensação de asco que esse riso me deu. Naquele momento, senti uma verdadeira desilusão pela Humanidade.
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