O exercício da autoridade
Motorista de ônibus, como quase todos nós brasileiros, tem uma certa aversão a seguir regras. Eu diria até que o ônibus tem sua própria lei, baseada no princípio da autoridade. Dentro do veículo a autoridade é o motorista e portanto cabe a ele determinar o que é permitido e o que não é.
- Amigo, pode dar uma paradinha ali?
ou
-Moço, pode abrir aqui pr'eu descer?
Todos já ouvimos e, provavelmente, já pronunciamos essas frases. Todos sabemos que, pela regra, o ônibus deveria parar somente no ponto. Se não sabemos, basta ler: está escrito lá na plaquinha, em algum lugar. Mas também sabemos que não é assim que acontece. Em geral, o motorista pára fora do ponto quando é solicitado. Ele o faz, entre outras coisas, porque na nossa sociedade tomam-se decisões levando muito mais em conta as relações interpessoais e de autoridade do que o sentido do dever.
- Pô, o cara foi gente boa, me pediu com educação para parar fora do ponto, que mal tem quebrar o galho dele?
Imagino que esse seja o raciocínio do nosso amigo motorista. Por me pediu com educação leia-se: reconheceu que eu exerço a autoridade neste ônibus; e por quebrar o galho leia-se: descumprir a regra como retribuição por esse reconhecimento.
Essa situação não ocorre só no ônibus. Quem já precisou obter algum documento numa repartição pública sabe que é maior a chance de consegui-lo rapidamente bajulando o funcionário (reconhecendo sua autoridade) ou usando um pistolão (a relação interpessoal) do que tentando fazê-lo compreender que seu dever é prestar um bom serviço.
A reação do motorista costuma ser diferente quando sua autoridade não é reconhecida. Tente entrar pela porta de trás do ônibus sorrateiramente quando ele estiver parado no ponto e irá descobrir. Várias vezes já vi o motorista mandar o "penetra" descer e não arrancar enquanto ele não saísse. Se o "carona", entretanto, dirigir-se ao motorista pela porta da frente e pedir com jeitinho, a chance de conseguir viajar de graça é bem maior.
quarta-feira, 25 de março de 2009
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