Agradecimento
Gostaria de agradecer ao motorista do 382 que encampou o princípio deste blog e resolveu contribuir para ele hoje. Ele deu a ideia deste post ao não parar no ponto onde desço todo dia, em frente ao shopping Downtown, na Avenida das Américas. Segundo ele, a empresa informou que ali não é mais ponto.
Engraçado, não? Na hora de passar direto onde NÃO É ponto o que a empresa diz conta muito. Mas na hora de parar por onde É ponto já não conta tanto.
Hummm, vou desenvolver essa ideia mais tarde...
sábado, 28 de março de 2009
sexta-feira, 27 de março de 2009
Questão de sorte
A Avenida Atlântica não tem ponto fixo, assim como suas prolongações Vieira Souto e Delfim Moreira. Teoricamente os ônibus param em todas as esquinas onde houver passageiro acenando ou querendo descer. Portanto há meses pego o ônibus na esquina com a Djalma Ulrich e quase sempre eles costumam parar.
A esquina onde pego ônibus e torço para ele parar todo dia
Anteontem, no entanto, quando eu já havia saído atrasado de casa, não foi assim. Fiz sinal para um S-20, que passou por trás de outro ônibus. Nem meu aceno agressivo o fez parar - quando sinto que o ônibus vai passar direto costumo entrar na pista dos carros com o braço levantado até o limite que me garante que não serei atropelado; na maioria das vezes funciona. Desta vez, o motorista balançou os braços de volta, como quem culpa o carro que estava na pista da direita por sua atitude de não encostar o ônibus.
Poucos minutos depois veio outro S-20, desta vez na pista da direita. Acenei com menos vigor, pensando que não haveria motivo para que ele passasse direto. Me enganei. O motorista não parou e gesticulou muito, como o anterior. Cogitei se, de um dia para o outro, a empresa havia estipulado pontos fixos para o S-20 na praia.
O 382 que veio a seguir tirou minha dúvida. Logo que acenei, já apreensivo e ainda mais atrasado para o trabalho, o motorista encostou e abriu a porta. Faço a transcrição do diálogo a seguir numa espécie de módulo SAP, já que o português rudimentar do motorista não era muito fácil de se entender.
- Oi, amigo, aqui ainda é ponto?
- Ah, aqui não tem ponto certo, não. Onde o passageiro fizer sinal a gente pára.
- É que eu fiz sinal e o S-20 passou direto duas vezes.
- É, eles passam direto mesmo.
- Mas como eu faço então?
- ...
- Acho que tenho que contar com a sorte, né?
- É, é na sorte mesmo.
A Avenida Atlântica não tem ponto fixo, assim como suas prolongações Vieira Souto e Delfim Moreira. Teoricamente os ônibus param em todas as esquinas onde houver passageiro acenando ou querendo descer. Portanto há meses pego o ônibus na esquina com a Djalma Ulrich e quase sempre eles costumam parar.
A esquina onde pego ônibus e torço para ele parar todo diaAnteontem, no entanto, quando eu já havia saído atrasado de casa, não foi assim. Fiz sinal para um S-20, que passou por trás de outro ônibus. Nem meu aceno agressivo o fez parar - quando sinto que o ônibus vai passar direto costumo entrar na pista dos carros com o braço levantado até o limite que me garante que não serei atropelado; na maioria das vezes funciona. Desta vez, o motorista balançou os braços de volta, como quem culpa o carro que estava na pista da direita por sua atitude de não encostar o ônibus.
Poucos minutos depois veio outro S-20, desta vez na pista da direita. Acenei com menos vigor, pensando que não haveria motivo para que ele passasse direto. Me enganei. O motorista não parou e gesticulou muito, como o anterior. Cogitei se, de um dia para o outro, a empresa havia estipulado pontos fixos para o S-20 na praia.
O 382 que veio a seguir tirou minha dúvida. Logo que acenei, já apreensivo e ainda mais atrasado para o trabalho, o motorista encostou e abriu a porta. Faço a transcrição do diálogo a seguir numa espécie de módulo SAP, já que o português rudimentar do motorista não era muito fácil de se entender.
- Oi, amigo, aqui ainda é ponto?
- Ah, aqui não tem ponto certo, não. Onde o passageiro fizer sinal a gente pára.
- É que eu fiz sinal e o S-20 passou direto duas vezes.
- É, eles passam direto mesmo.
- Mas como eu faço então?
- ...
- Acho que tenho que contar com a sorte, né?
- É, é na sorte mesmo.
quarta-feira, 25 de março de 2009
O exercício da autoridade
Motorista de ônibus, como quase todos nós brasileiros, tem uma certa aversão a seguir regras. Eu diria até que o ônibus tem sua própria lei, baseada no princípio da autoridade. Dentro do veículo a autoridade é o motorista e portanto cabe a ele determinar o que é permitido e o que não é.
- Amigo, pode dar uma paradinha ali?
ou
-Moço, pode abrir aqui pr'eu descer?
Todos já ouvimos e, provavelmente, já pronunciamos essas frases. Todos sabemos que, pela regra, o ônibus deveria parar somente no ponto. Se não sabemos, basta ler: está escrito lá na plaquinha, em algum lugar. Mas também sabemos que não é assim que acontece. Em geral, o motorista pára fora do ponto quando é solicitado. Ele o faz, entre outras coisas, porque na nossa sociedade tomam-se decisões levando muito mais em conta as relações interpessoais e de autoridade do que o sentido do dever.
- Pô, o cara foi gente boa, me pediu com educação para parar fora do ponto, que mal tem quebrar o galho dele?
Imagino que esse seja o raciocínio do nosso amigo motorista. Por me pediu com educação leia-se: reconheceu que eu exerço a autoridade neste ônibus; e por quebrar o galho leia-se: descumprir a regra como retribuição por esse reconhecimento.
Essa situação não ocorre só no ônibus. Quem já precisou obter algum documento numa repartição pública sabe que é maior a chance de consegui-lo rapidamente bajulando o funcionário (reconhecendo sua autoridade) ou usando um pistolão (a relação interpessoal) do que tentando fazê-lo compreender que seu dever é prestar um bom serviço.
A reação do motorista costuma ser diferente quando sua autoridade não é reconhecida. Tente entrar pela porta de trás do ônibus sorrateiramente quando ele estiver parado no ponto e irá descobrir. Várias vezes já vi o motorista mandar o "penetra" descer e não arrancar enquanto ele não saísse. Se o "carona", entretanto, dirigir-se ao motorista pela porta da frente e pedir com jeitinho, a chance de conseguir viajar de graça é bem maior.
Motorista de ônibus, como quase todos nós brasileiros, tem uma certa aversão a seguir regras. Eu diria até que o ônibus tem sua própria lei, baseada no princípio da autoridade. Dentro do veículo a autoridade é o motorista e portanto cabe a ele determinar o que é permitido e o que não é.
- Amigo, pode dar uma paradinha ali?
ou
-Moço, pode abrir aqui pr'eu descer?
Todos já ouvimos e, provavelmente, já pronunciamos essas frases. Todos sabemos que, pela regra, o ônibus deveria parar somente no ponto. Se não sabemos, basta ler: está escrito lá na plaquinha, em algum lugar. Mas também sabemos que não é assim que acontece. Em geral, o motorista pára fora do ponto quando é solicitado. Ele o faz, entre outras coisas, porque na nossa sociedade tomam-se decisões levando muito mais em conta as relações interpessoais e de autoridade do que o sentido do dever.
- Pô, o cara foi gente boa, me pediu com educação para parar fora do ponto, que mal tem quebrar o galho dele?
Imagino que esse seja o raciocínio do nosso amigo motorista. Por me pediu com educação leia-se: reconheceu que eu exerço a autoridade neste ônibus; e por quebrar o galho leia-se: descumprir a regra como retribuição por esse reconhecimento.
Essa situação não ocorre só no ônibus. Quem já precisou obter algum documento numa repartição pública sabe que é maior a chance de consegui-lo rapidamente bajulando o funcionário (reconhecendo sua autoridade) ou usando um pistolão (a relação interpessoal) do que tentando fazê-lo compreender que seu dever é prestar um bom serviço.
A reação do motorista costuma ser diferente quando sua autoridade não é reconhecida. Tente entrar pela porta de trás do ônibus sorrateiramente quando ele estiver parado no ponto e irá descobrir. Várias vezes já vi o motorista mandar o "penetra" descer e não arrancar enquanto ele não saísse. Se o "carona", entretanto, dirigir-se ao motorista pela porta da frente e pedir com jeitinho, a chance de conseguir viajar de graça é bem maior.
Primeiro post: de onde veio a ideia?
Seis anos e meio atrás comecei meu primeiro blog. Um dos primeiros posts serviria de inspiração para o businrio. Foi sobre algo que presenciei numa viagem de ônibus. Abaixo transcrevo aquele post com a explicação da minha teoria fundamental sobre a relação entre o que acontece no ônibus coletivo e o que se passa na sociedade em geral. Para situar o leitor, explico que naquela época estavam começando a usar as portas dianteiras dos ônibus para entrada e não mais as traseiras. Boa leitura!
O povo é escroto
É andando de ônibus que a gente percebe como o povo é escroto. Hoje eu vim para o jornal num daqueles ônibus ao contrário: os passageiros entram pela frente e saem por trás. (Para quem não conhece, é mais uma forma indecente de as empresas de ônibus aumentarem seus lucros. Idosos, estudantes e deficientes são obrigados a entrar pela frente e viajar num espaço entre a porta e a roleta. Quando esse espaço está cheio, eles têm de passar a roleta e pagar passagem. Dessa forma, a empresa garante que um número limitado de pessoas viajará de graça).
Enfim, as pessoas ainda não se acostumaram com os ônibus-caranguejo e então se dirigem à porta de trás. Hoje, uma mulher chegou a entrar por trás, mas só aí percebeu que estava na porta errada. Ela pediu ao motorista que a esperasse chegar à porta dianteira antes de dar a partida e desceu do ônibus.
É lógico que o ônibus arrancou e a deixou com cara de idiota no ponto. Foi aí que a reação dos outros passageiros me surpreendeu. Ao invés de se solidarizar com a mulher, o povo começou a rir. Minhas suspeitas foram confirmadas: o povo é escroto.
Hoje a saída do ônibus é por trás, mas nem sempre foi assim; lembra?
Eu vinha desenvol- vendo essa teoria desde que assisti ao filme Cronicamente inviável, de Sergio Bianchi. No filme, um ônibus fecha o carro de uma madame no trânsito. Ela corre atrás do ônibus e lhe dá uma fechada, obrigando-o a parar. Em seguida, começa a esculachar o motorista, dizendo que ele é um pé-rapado, um merda, por isso não passa de um motorista de ônibus. Enfim, todas as coisas que a gente pensa em dizer quando leva uma fechada de um ônibus. Ao fim do chilique, o povo que está no interior do coletivo começa a bater palmas para a mulher.
Ora, esse diretor mostrou que conhece muito pouco da alma do povo que anda de ônibus. O povo fica sempre do lado do motorista. Quando você está no ponto e o ônibus passa direto, o motorista é um filho da puta. Mas quando você está dentro do ônibus, tudo o que o motorista faz é ótimo, desde que você chegue mais cedo ao seu destino. Já dizia o ditado: pimenta nos olhos dos outros é refresco.
Quer um exemplo? Uma vez uma amiga viu o ladrão metendo a mão na bolsa dela dentro do ônibus e lhe roubando o celular. Ela pediu para que o motorista parasse e gritou que havia sido roubada. O que o povo fez? Disse que ela era louca, gritou: "Vambora, piloto. Deixa essa maluca aí gritando!". Pobre povo brasileiro...
Até agora eu ouço o riso do povo escarnecendo da mulher ignorante que não sabia ler "entrada pela dianteira". Ainda me lembro da sensação de asco que esse riso me deu. Naquele momento, senti uma verdadeira desilusão pela Humanidade.
Seis anos e meio atrás comecei meu primeiro blog. Um dos primeiros posts serviria de inspiração para o businrio. Foi sobre algo que presenciei numa viagem de ônibus. Abaixo transcrevo aquele post com a explicação da minha teoria fundamental sobre a relação entre o que acontece no ônibus coletivo e o que se passa na sociedade em geral. Para situar o leitor, explico que naquela época estavam começando a usar as portas dianteiras dos ônibus para entrada e não mais as traseiras. Boa leitura!
O povo é escroto
É andando de ônibus que a gente percebe como o povo é escroto. Hoje eu vim para o jornal num daqueles ônibus ao contrário: os passageiros entram pela frente e saem por trás. (Para quem não conhece, é mais uma forma indecente de as empresas de ônibus aumentarem seus lucros. Idosos, estudantes e deficientes são obrigados a entrar pela frente e viajar num espaço entre a porta e a roleta. Quando esse espaço está cheio, eles têm de passar a roleta e pagar passagem. Dessa forma, a empresa garante que um número limitado de pessoas viajará de graça).
Enfim, as pessoas ainda não se acostumaram com os ônibus-caranguejo e então se dirigem à porta de trás. Hoje, uma mulher chegou a entrar por trás, mas só aí percebeu que estava na porta errada. Ela pediu ao motorista que a esperasse chegar à porta dianteira antes de dar a partida e desceu do ônibus.
É lógico que o ônibus arrancou e a deixou com cara de idiota no ponto. Foi aí que a reação dos outros passageiros me surpreendeu. Ao invés de se solidarizar com a mulher, o povo começou a rir. Minhas suspeitas foram confirmadas: o povo é escroto.
Hoje a saída do ônibus é por trás, mas nem sempre foi assim; lembra?Eu vinha desenvol- vendo essa teoria desde que assisti ao filme Cronicamente inviável, de Sergio Bianchi. No filme, um ônibus fecha o carro de uma madame no trânsito. Ela corre atrás do ônibus e lhe dá uma fechada, obrigando-o a parar. Em seguida, começa a esculachar o motorista, dizendo que ele é um pé-rapado, um merda, por isso não passa de um motorista de ônibus. Enfim, todas as coisas que a gente pensa em dizer quando leva uma fechada de um ônibus. Ao fim do chilique, o povo que está no interior do coletivo começa a bater palmas para a mulher.
Ora, esse diretor mostrou que conhece muito pouco da alma do povo que anda de ônibus. O povo fica sempre do lado do motorista. Quando você está no ponto e o ônibus passa direto, o motorista é um filho da puta. Mas quando você está dentro do ônibus, tudo o que o motorista faz é ótimo, desde que você chegue mais cedo ao seu destino. Já dizia o ditado: pimenta nos olhos dos outros é refresco.
Quer um exemplo? Uma vez uma amiga viu o ladrão metendo a mão na bolsa dela dentro do ônibus e lhe roubando o celular. Ela pediu para que o motorista parasse e gritou que havia sido roubada. O que o povo fez? Disse que ela era louca, gritou: "Vambora, piloto. Deixa essa maluca aí gritando!". Pobre povo brasileiro...
Até agora eu ouço o riso do povo escarnecendo da mulher ignorante que não sabia ler "entrada pela dianteira". Ainda me lembro da sensação de asco que esse riso me deu. Naquele momento, senti uma verdadeira desilusão pela Humanidade.
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